Minha voz parece muda
Sinto como se houvesse um silêncio em mim
O que digo a quem interessa senão à mim
Meu últero sangra
Meu coração rodopia entre os tempos
Num instante eu choro pelas lembranças da minha juventude
No outro agradeço o olhar do meu pequeno
No outro choro por ver o futuro definhando.
Eu tenho tentando equilibrar tudo num prato de cerâmica verde.
O pastel que papai trazia da feira numa manhã de sábado, e comíamos sentados na escada que levava ao quintal. Tinha gosto de família, calor e amor. As mãos da mãe que não tocam mais meu corpo, as lembranças dos seus dedos que aqueciam meu coração.
O coração esquenta quando olho o azul do olho do Bruno rindo para mim, o brilho resplandecendo da descoberta e da juventude. E minha sogra grita perdida em tantas partes fragmentadas de si, ela chama por seus pais, pela sua mãe, chama por seus filhos, pelas crianças que ensinará, ensinou tantas crianças mas não aprendeu a manter a sanidade, a saúde…
Sinto meu coração encolher, petrificar, penso nesse giro temporal. Meu pai também sente os efeitos do tempo no seu corpo, na sua mente. Não existe brilho que reluz, existe um brilho molhado de saudade, de medo de saber que não verá as descobertas do Bruno…
Numa manhã dessas parei para observar o Bruno na balança que papai e mamãe compraram para o Ricardo. Me parecia que o Ri, seria um bebê para sempre. E no vai e vem do balançar, se passaram 14 anos, eu pude ver o Ri brincando no jardim, minha mãe ensinando sobre as plantas, meu pai chegando com o pão que ele gostava para o café, numa manhã de sábado… e nesse dia, nós que chegamos com o pão que o vovô gostava.
Entre os olhares perdidos no passado, temerosos do futuro, ansiosos por descobertas, olho para meu corpo que dá sinais que minha experiência aqui está avançada, que preciso aprender a viver em harmonia com meu corpo e minha mente.
Que só preciso ser plena no momento presente. Respeitando o inevitável ciclo de tudo que vive e renasce.
O futuro definha e também nasce. Se decompõe, nutre o solo com infindáveis histórias para gerar sementes cada vez mais ricas. Que nossa ancestralidade virtuosa, possa brotar nos corações que batem, iluminando seus olhos e aquecendo suas almas.
Sem comentários:
Enviar um comentário