segunda-feira, 18 de abril de 2022

Retração na noite

Intervalos de mãe 

Lactante 

Amamentante

Intervalos de mulher 

Que tem a cama dividida

O amor que separa o que já não tinha união

Intervalos de profissional 

Que tem a vida fragmentada entre esposa, nora, patroa, mãe, empregada, mulher, irmã, filha, tia…

Não sei onde me encontro, como encontro a pessoa que um dia esteve aqui, ou quiçá vai estar…

Outro dia sonhei com minha mãe, foi um dia q não gostei de mim, que me cobrei, que achei que poderia ter agido diferente…

Ela me olhava com feições pesadas e envelhecidas…

Carregava o peso da culpa

Uma culpa ancestral, familiar, feminina…

Uma culpa de ser insuficiente 

Uma culpa que carrego comigo: 

Quando se nasce mulher, já se é menos. 

Ou se abraça a deficiência, ou se multiplica em polvo para provar que pode com tudo…

Que não esmorece mesmo tendo o coração macerado vertendo sangue…

Não se mostra suas fragilidades porque isso expõe toda fraqueza da estrutura que se sustenta em você 

Se você ruir… 

Uma comunidade se arruina a partir de você…

Seu bater de asas é uma catástrofe eminente 

Se cale, se feche, se encapsule! 

Chore sozinha entre uma sucção e outra…

Sua sina é se calar e diminuir para projetar o que esperam de você… 

Você encolhe para fazer grande quem te olha, te aponta e julga… 

Mas seu ínfimo tamanho nunca será suficiente…

Não tenho razão, nem paz…

Sou alicerce mas quero ser nuvem 

Que passa 

Que voa 

Que dissipa 



Sem comentários:

Enviar um comentário